sábado, 23 de fevereiro de 2013

Comida da vovó

Dia entra, dia sai. Trabalho, estudos e muito dinheiro nos aguardam no final das contas. Será, mesmo? A nossa vida tem um vai e vem complicado e seguidamente temos que enfrentar as dificuldades que ela nos fornece. Embora seja abstrato pensar assim, sabemos que a vida não existe em si mesma. Ela está dentro de nós e essa definição é um tanto quanto difícil. Mas o dia-a-dia nos mostra que ela, seja quem for, nos reserva as mais inesperadas surpresas. Como dizem, "a vida é uma caixinha de surpresas".

E estudamos, trabalhamos. Nos esforçamos e corremos atrás. Ah, quão bons eram os dias da infância, diz o outro. Mas não basta estudar! Tem que estudar, e muito! Além do Ensino Médio, temos que ingressar na Universidade. Achando que é o suficiente, nossos mestres nos dizem: especialize-se. E lá vamos nós, nos intercâmbios, cruzando o planeta, nos congressos, pós-graduações, mestrados, doutorados. Será ainda o suficiente? Não. E não basta estudar tudo isso, tem que trabalhar, formar uma família, ser exemplo, "fazer o bem", ir à igreja, ser legal, bacana, paciente... Ou seja, em resumo, temos que dar além do nosso melhor. Temos de ser excepcionais! A comida é cada vez mais "rápida" e menos saudável, o almoço em família deixa de existir para dar lugar a conversas monótonas e sem graça, muitas vezes dividindo espaço com smartphones e trabucos desse tipo.

A vida é corrida. Ela não para e simplesmente nos deixa malucos! E eu, como estudante de intercâmbio, vejo que ela realmente não "dá mole"! Se eu vacilar, ela passa por cima! Entretanto, vagamente, lembro-me dos dias de abraços e beijos. Almoços e jantas. Hoje não mais tomam seu lugar. A distância tratou de removê-los, até mesmo da minha memória a curto prazo. Mas, ao fitar o espelho e reparar no cabelo curto e no bigode ridículo que carrego devido ao desafio proposto por amigos, torna-se impossível não relembrar as inúmeras vezes que cheguei em casa e encarei o olhar da minha vó: "tá bonito!", "tá muito curto!", ou então, quando a coisa era séria, "Leonardo?!". O que me deixava contente era a sinceridade e a espontaneidade das afirmações. O que tenho hoje é um grilo que não tem opinião sobre o corte.

Não apenas a mais velha das duas. A mais nova também. Mas a mais nova costumava dizer, enfaticamente, talvez por ser a mãe e querer proteger o filhote: "Que nada, ficou lindo". Aquilo bastava, era o suficiente para eu ganhar o dia. E, sabe o que? Eu sinto falta disso. Estudamos, trabalhamos, viajamos. Mas trocaria a inúmera variedade de refeições que o restaurante universitário me proporciona, por um simples prato de arroz e bife da minha vó. "Ah.... a comida da vovó". Não é fácil esquecer e nunca será. Mesmo quando nos apartarmos na despedida temporária, lembrarei com todo o carinho dos inúmeros almoços e jantas feitos com amor pela pessoa maravilhosa.

É, a vida não é fácil. Como diria um amigo: "a vida é amarga". E realmente, mostra-se amarga em muitas faces. Nem sempre é assim. Conseguimos mascarar com um pouco de açúcar, aqui e ali. Mesmo amarga, é bela e agradeço a Deus por ela. Trabalho, estudos e dinheiro, tudo passa. O que não passa é a vontade de deliciar mais uma vez a comida da vovó. Essa, meus amigos, a gente nunca esquece.


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Onde foi que eu errei?

A vida é uma reserva de insanidades. Por insanidades, refiro-me a loucuras das mais doidas e estupefatas possíveis. O mais incrível é que se vive sem questionar. Mas não se questiona sem viver. De certo modo, a pergunta e a resposta, bem como a geografia, estão amarradas. E, estando atadas uma à outra, é semi-impossível não incorrer na realidade de um dia chegar e tais questões surgirem à tona em momentos impróprios. Impressionante forma como a psique elabora tais perguntas, esquecendo-se de muito que já passou, das respostas anteriores armazenadas, da vivência, da certeza dos erros e, muitas vezes, da certeza do motivo da colheita. Mas de qualquer modo, lá surge a indagação: "Onde foi que eu errei?". Para que minha vida estivesse assim hoje, onde foi? Minhas más escolhas, o pecado que em mim reside, a falta de comunicação, o excessivo uso de artifícios e vergonhas que se levantam nos minutos errados, arrasando com o dia, terminando com a beleza que outrora fora. 

Sim, sinto muito. Mas essa pergunta veio à tona. Onde foi que eu errei, afinal? O amor de muitos que estão próximos já não está mais aqui. Quem sabe o que o futuro me reserva? Será apenas um pouco de insanidade, como havia comentado acima? Ou será que é possível tornar a sorrir com a melhor das intenções, a paz que excede o entendimento, a alegria da Salvação? Basta um pequeno sorriso para esconder uma grande tristeza! À medida, porém, que o sorriso se torna forçado, na intensidade de uma falsidade interior, passa-se a perceber a incredulidade do coração, as dúvidas, o incerto. 

Afinal, onde foi que eu errei? Perdi o amor fraterno. A saudade não existe, a dor parece ter sumido. Por que se escondem as faces nos momentos de luta? Seria tão mais fácil se a expressasse e demonstrasse o verdadeiro sentimento. Na realidade, o erro é inerente; "erro" e "humano" em mesma sentença é o mesmo que chover no molhado. E por aí vai a prosa. Espero na próxima estar apto às minhas próprias respostas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Decepção

Já devo ter escrito sobre esse tema em outra oportunidade. Mas me sinto impelido a voltar, as entranhas me enviam. Você pode viver uma vida de decepções: amigos, familiares, cônjuges, namorados, namoradas, etc. São diversas decepções nessa vida. Algumas com o chefe, outras com o empregado, umas com os ladrões, outras ainda com os políticos que elegemos. Mas nenhuma delas, sequer, pode chegar próximo do que denomino auto-decepção. Esta, por sua vez, é a grandiosa, imperatriz e dona de todas as outras. Quando por perto, ofusca a vista para quaisquer outras verdades ou inverdades em derredor. A auto-decepção é tão destrutiva quanto a depressão. Talvez seja uma das causas - não me habilito a discorrer sobre um tema tão complexo e fora de meu conhecimento. 

A auto-decepção pode surgir numa briga com os pais, filhos, melhores amigos. Palavras ditas que, sim, voltam! Fortes e vivas, em forma de decepção, depreciação, desconsolo! Há uma colheita para cada plantio. Não podemos desfazer o fato, refazer o passado. A ocasião que o levou ao conhecimento da auto-decepção já foi, meu amigo. Você não pode fazer nada diante disso, e talvez por esse motivo, a auto-decepção seja tão destrutiva. É iminente sofrer diante da decepção. Quanto mais daquela que mostra o quão estúpido estamos sendo ou agimos em determinada situação. E o pior é o seguinte... a auto-decepção muitas vezes se mostra de formas negras e negativas. Quando descobrimos que não somos aquilo que estimávamos ser; quando decepcionamos nossos valores e os jogamos longe de qualquer forma de agarre. A auto-decepção é um caos, um câncer, uma verdade. Fuja dela, fuja de suas garras.

Os dias são maus. Já havia dito Jesus Cristo há cerca de dois mil anos. E são mesmo. Mas por quê? Porque nós, seres habitantes desse planeta, formadores dos dias - sejam bons ou maus -, conseguimos deturpar tudo que é puro a um nível de desvalorização enorme. Agarramos o pecado e nos lambuzamos com ele. E depois, adivinha? A auto-decepção, a depressão em vista dos valores perdidos, a dor de não ter controle das próprias ações, a constatação da pior revelação da vida: somos fracos e dignos de decepção.

Entenda uma coisa. A auto-decepção não vai abandoná-lo. Corre atrás, e apenas pode ser minimizada, uma vez que entregamo-nos de verdade a Cristo, crendo na Sua remissão, na redenção dos pecados. Ou seja, quando de fato formos livres. Que sejamos livres, ainda mais da decepção, que essa, sim, mata.

domingo, 3 de junho de 2012

Da minha janela

Da minha janela vejo muitas coisas. Pra ser sincero, não via há muito tempo. Quando estamos vendados, nada à frente parece brilhar. E por muito tempo me senti assim, vendado. Como se um tapa-olhos estivesse diante de mim; talvez numa melhor alusão, por muito tempo me senti como se uma viseira equina tapasse qualquer visão ao derredor. E nesses momentos, a única coisa possível e passível de ser feita é olhar para frente, não mais vislumbrar determinadas cores, enxergar tons de sépia e escala de cinza, misturados em um preto-e-branco sem graça, tirando a alegria e beleza da vida. E nesses momentos, é essencial refreá-la. Remover a viseira e olhar em volta, vislumbrar as cores, reaprender a enxergar e visualizar além dos pequenos graus de liberdade que anteriormente nos eram permissos. Resumindo, necessário é abrir a janela. E eu fiz isso hoje. Havia decidido fechar a veneziana desta que ao meu lado está. Mas, ao abrir os vidros para poder puxar os retos de madeira e cerrar qualquer interferência externa, por um instante me permiti admirar a paisagem que ali estava. À esquerda, um esquecido coqueiro antigo, o qual carrego em memória há muitos anos; à direita, a paisagem iluminada pelos lumiares de uma cidade vizinha; e, por fim, acima, um céu maravilhosamente desenhado com nuvens deixadas para trás no findar de alguns dias chuvosos e um tom azulado que apenas a natureza tem capacidade de conceber. Foi especial e essencial abrir a janela. Pude relembrar motivos que me fizeram sorrir e que ainda o podem fazer. 

domingo, 27 de maio de 2012

Deus escreve reto por linhas tortas?

Alguns dizem: "Deus escreve reto por linhas tortas". Outros dizem: "Deus não escreve reto por linhas tortas, mas sempre escreve reto". Não sei qual delas é a correta, mas me inclino mais à primeira afirmação; não no sentido de que Deus escreva linhas tortas, ou deixe a matemática de lado e use Seus artifícios divinos para criar tais retilíneas através de parábolas, senoides, exponenciais e outras "tortisses" que conhecemos. No entanto, observe a figura ao lado. Várias linhas tortas, certo? Errado! São algumas linhas retas, paralelas entre si. O efeito de inclinação é passado ao nosso cérebro por aquelas demais linhas intermediárias, que cruzam as paralelas. E eu vejo o livro de Deus, a história das nossas vidas, como linhas tortas, que no fim são apenas uma ilusão de ótica e se mostram ser, na realidade, linhas retas, paralelas entre si. E digo isso, pois a minha vida tem sido um escrito de linhas tortas. Deus pode me virar aqui, ali. Às vezes quebra meu teto de vidro e tira meu chão. Nulo fico, numa imensidão sem par, desprovido de qualquer alicerce. E nesse instante de "tortisse", Deus vem e mostra a Sua misericórdia, Seu poder, Seu amor. Ele remove as linhas intermediárias que nos mostram a história como torta e vislumbramos maravilhosas linhas retas e paralelas, todas funcionando a nosso favor, todas escrevendo nossa história. 

As crianças possuem uma característica na caligrafia. Poucas conseguem manter a linearidade em uma frase completa, quando escrevendo sobre folhas brancas. As linhas ficam tortas, mas pensam escrever retamente. No fim do texto, constatam que ficou uma bagunça; palavras pra cima, outras pra baixo, a mescla foi feita. Mas não importa, o texto foi escrito. Essa é outra abordagem sobre Deus. Quando achamos que Ele está escrevendo mal nossa história, é aí que nos surpreendemos com a riqueza com que Ele "laboreou" nossa história. E o mais incrível nesse contexto todo, é o cuidado dEle. Embora as pessoas tenham saído e entrado das nossas vidas, o amor se foi, a paz se foi, a luta veio, o consolo chegou, o escritor continuou e continua o mesmo. E como todos sabemos, na escrita de um livro, o escritor é o último a abandonar o tema, a obra; o fim só acontece quando o ponto final é desenhado.